Espaço da Palavra!

Espaço para contos, crônicas, poemas, críticas, comentários e resenhas… Enfim, espaço do escritor. Por Lilly Soares

7.11.08

Hands On

Texto de autoria de Max Gehringer (colunista da revista Exame)

  Vi um anúncio de emprego. A vaga era de Gestor de Atendimento Interno, nome que agora se dá à Seção de Serviços Gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem - sem contar a formação superior, liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON.

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico. Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico….

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno… E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, Gerente da Contabilidade. Seu Borges: — Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.

Fabiana: — In a hurry!

Seu Borges: — Saúde.

Fabiana: — Não, Seu Borges, isso quer dizer ‘bem rapidinho’. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?

Seu Borges: — E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?

Fabiana: — O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.

Seu Borges: — Não, não. Cópias normais mesmo.

Fabiana: — Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.

Seu Borges: — Fabiana, desse jeito não vai dar!

Fabiana: — E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.

Seu Borges: — Como assim?

Fabiana: — É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.

Seu Borges: — Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.

Fabiana: — Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro…

Seu Borges: — Futuro? Que futuro?

Fabiana: — É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.

Seu Borges: — Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!

Fabiana: — Sei. Mas o senhor é hands on?

Seu Borges: — Hã?

Fabiana: — Hands on….Mão na massa.

Seu Borges: — Claro que sou!

Fabiana: — Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:

1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.

2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.

Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas! Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e no meio da estrada, a VAN da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação… só que não sabia nem abrir o capô.

Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava ‘nóis vai’ e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.- Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as Empresas modernas torcem o nariz:

O QUE É CAPAZ DE RESOLVER, MAS NÃO DE IMPRESSIONAR. 

Max Gehringer

 

 

 

 

criado por lili_as    20:33 — Arquivado em: Interessante, Para Refletir

3 Comentários »

  1. Comentário por Ylagooo — 8.11.08 @ 18:14

    hehe… gostei do “nóis vai”.

    O que mais me admira é como esta “Abundância de candidatos” é irreal na área de Tecnologia… E assustadora em muitas outras áreas…

    No entanto, aparecem muitos que resolvem e impressionam…

    Gostei do texto…

  2. Comentário por TATIANA REZENDE — 11.11.08 @ 7:13

    Max Gehringer é sempre ótimo!

  3. Comentário por Adh2bs — 11.11.08 @ 19:09

    Olá!
    Sou fã do Max Gheringer, ele é um sujeito que demonstra muito bom senso - artigo rarírssimo hoje em dia - e é prático, direto. Quanto ao final da era Bush, não sou eu quem vai estourar o balão de ninguém, mas o Obama já deu entrevista antecipando que vai endurecer a conversa com o Irã, que eles não podem ter armas atômicas… Ou seja, o arroz tá queimando de novo… Tudo bem, o outro era pior, mas lá nos EUA acho que só mudou a môsca! Grande abraço, ótima semana!
    Adh

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